XXV Domingo do Tempo Comum
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Reflexões sobre as leituras
de LUCIANO MANICARDI
A mormuração não é uma tomada de posição clara que exprime uma divergência leal, mas um movimento subterrâneo que congrega pessoas que ganham força maldizendo e que se exprimem com acusações e queixas. A sua lógica é a cumplicidade e não a responsabilidade.
Domingo 18 Setembro 2011
Ano A
Is 55,6-9; Sal 144; Fil 1,20-27; Mt 20,1-16
A declaração divina transmitida pelo Profeta “Os meus planos não são os vossos planos, os vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55,8) encontra expressão na parábola evangélica segundo a qual os trabalhadores que trabalharam apenas uma hora na vinha receberam o mesmo salário daqueles que trabalharam todo o dia. No ar escandalizado dos que trabalharam desde as primeiras horas do dia está patente a distância entre o pensar e o agir de Deus e o pensar e o agir dos homens.
Esta distância não corresponde nem a um capricho de Deus nem ao seu livre arbítrio, mas à sua misericórdia. O que os trabalhadores que começaram de manhã contestam junto do proprietário é o facto de terem recebido a mesma recompensa daqueles que começaram ao fim do dia. Dizem literalmente: “Estes últimos só trabalharam uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós que suportámos o cansaço do dia e o seu calor" (Mt 20,12). Fazer aos últimos o mesmo do que aos primeiros anula as discriminações e os privilégios. O Deus bíblico é, de facto, o Deus da Graça. Há um trecho da Catequese sobre a Santa Páscoa do Pseudo-João Crisóstomo que exprime bem o primado da misericórdia e da graça sobre a lógica jurídica: “quem trabalhou desde a primeira hora, receba o salário justo; quem chegou depois da hora terça dê graças e faça festa; quem chegou depois da hora sexta não hesite: não sofrerá qualquer dano; quem apenas chegou à hora nona, venha sem hesitar; quem chegou à décima primeira hora, não tema pelo seu atraso. O Senhor é generoso, acolhe o último como ao primeiro, concede o repouso a quem chegou por último como a quem trabalhou desde manhã. É misericordioso tanto para com o último como para com o primeiro".
O texto interpela-nos sobre aquilo que está no coração da nossa vida com Deus: a relação ou a prestação? Conceber o serviço a Deus como uma prestação leva-nos a medi-lo e a compará-lo com o serviço dos outros entrando em competição. Se, pelo contrário, existe uma relação com o Senhor, então também o peso do dia de trabalho é "jugo suave e fardo leve" (cf. Mt 11,30) e a bondade do Senhor para com todos é motivo de agradecimento, não de contestação.
A distância entre os pensamentos de Deus e os dos homens é importante de preservar porque impede a operação perversa de identificar os pensamentos humanos com os de Deus. Esta afirmação contraria a a presunção religiosa que projecta em Deus as suas acções e pensamentos e identifica as sua palavras sobre Deus com Deus e mesmo a sua vontade com a de Deus. O exemplo dado pelo profeta é um convite à humildade do pensamento, em particular do pensamento teológico, do pensamento que ousa "pensar Deus".
Os trabalhadores que chegaram de manhã são desmascarados como invejosos. E a inveja é defenida como ter "mau olhar" (Mt 20,15). A etimologia da palavra esclarece-nos: in-videre, significa “não ver”, “ver contra”, e exprime o olhar cruel de quem se pergunta: “porquê para ele sim e para mim não?";“porquê para mim, que merecia mais, o mesmo que para ele?”. A inveja cega-nos. Se a inveja é a intolerância para com os limites que nos impedem de alcançar aquele status que vemos realizado nos outros, por nós próprios, então deve ser corrigida aprendendo a desejar o possível.
Na inveja não só não se vê o Deus misericordioso como não se vêem também os irmãos: entra-se numa relação jurídica proprietário - servo, e sai-se da solidariedade para com os outros trabalhadores, para com os outros homens.
O mal da vida comunitária e eclesial é a mormuração (cf. Mt 20,11). Mormurando, os trabalhadores que chegaram cedo afirmam que o proprietário não tinha o direito de comportar-se da forma como se comportou. A mormuração não é uma tomada de posição clara que exprime uma divergência leal, mas um movimento subterrâneo que congrega pessoas que ganham força maldizendo e que se exprimem com acusações e queixas. A sua lógica é a cumplicidade e não a responsabilidade.
LUCIANO MANICARDI
Comunidade de Bose
Eucaristia e Parola
Textos para as celebrações eucarísticas - Ano A
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